Conflitos globais avançam sobre cadeias produtivas e ampliam impactos na economia
Professor da Univali analisa efeitos diretos sobre fretes, energia e cadeias globais

O avanço de tensões geopolíticas em regiões estratégicas do planeta reposiciona rotas, encarece insumos e redesenha decisões no comércio exterior. Na leitura do professor de Relações Internacionais, Direito e Comércio Exterior da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), Ricardo Boff, os conflitos internacionais operam hoje como vetores imediatos de custo e risco: atravessam a energia, pressionam o transporte marítimo e reverberam no preço final de produtos e serviços em escala global.
Em uma economia profundamente conectada, cadeias produtivas dependem de fluxos contínuos de matérias-primas e logística previsível. Quando pontos sensíveis entram em tensão – como o Estreito de Hormuz (foto), responsável por mais de 20% do petróleo mundial – o efeito se propaga.
“O primeiro impacto aparece no custo da energia. Em seguida, alcança insumos amplamente utilizados, como os derivados de petróleo, e chega ao consumidor”, afirma o professor Ricardo Boff.
Foto: iStock - Alones Creative | #PraTodosVerem: Imagem de satélite do Estreito de Hormuz com linhas gráficas representando rotas marítimas ou fluxos de dados.Energia, insumos e o efeito dominó
O encarecimento do petróleo altera a base de custos de múltiplos setores. Plásticos, fertilizantes, embalagens e uma extensa lista de componentes industriais passam a incorporar a volatilidade do mercado energético. O resultado se distribui ao longo da cadeia: produção, transformação e consumo.
Além da energia, a instabilidade atinge corredores logísticos vitais. Rotas que conectam a Península Arábica ao Canal de Suez concentram parcela significativa do comércio marítimo internacional. Com o aumento do risco, seguradoras revisam prêmios e armadores recalculam trajetos. O frete sobe e, com ele, o preço que percorre prateleiras e contratos.
Frete, pressão interna e reação em cadeia
No Brasil, esse movimento global encontra um ponto de tensão adicional no transporte rodoviário. Diante da alta no custo dos combustíveis, caminhoneiros pressionam por recomposição dos valores pagos pelo frete, impactados diretamente pelo encarecimento da operação.
“Há uma defasagem clara entre o custo que aumenta e o valor que é pago pelo transporte. Do ponto de vista da reposição dessas perdas, a demanda dos caminhoneiros é legítima”, analisa o professor.
Segundo ele, há indicativos de mobilização da categoria, com possibilidade de paralisação voltada à pressão sobre transportadoras – sem, ao menos neste momento, sinalização predominante de bloqueio de rodovias.
“O movimento tende a se concentrar na negociação por melhores condições de remuneração”, explica.
Boff observa ainda que, em cenários de instabilidade, o aumento de preços também incorpora um componente antecipatório.
“A expectativa de alta gera reajustes preventivos ao longo da cadeia. Em alguns casos, por precaução; em outros, por oportunidade. Esse comportamento acelera a inflação percebida”, afirma.
Outro fator estrutural citado pelo professor é a redução da capacidade de intervenção do país sobre o setor de combustíveis.
“Nos últimos anos, o Brasil abriu mão de instrumentos importantes de controle sobre produção e distribuição. Isso limita a adoção de políticas públicas em momentos de crise e amplia a exposição às oscilações do mercado internacional”, pontua.
Rotas sob pressão e custos em trânsito
Em escala global, a elevação do risco em zonas de passagem estratégica modifica decisões operacionais em tempo real. Navios evitam áreas críticas, ampliam distâncias e consomem mais combustível. O impacto não se restringe à logística: contratos são renegociados, prazos se estendem e margens se ajustam.
“Quando há restrição ou perigo em rotas-chave, o custo do transporte aumenta, e esse valor é repassado ao longo da cadeia até o consumidor final”, explica Boff. O movimento revela uma engrenagem sensível: qualquer fricção geopolítica tende a repercutir na eficiência do comércio global.
Comércio exterior: leitura estratégica do cenário
Para o campo do comércio exterior, compreender esses deslocamentos orienta decisões concretas. Empresas reavaliam fornecedores, diversificam origens, ajustam estoques e redesenham contratos para mitigar riscos. Governos, por sua vez, calibram políticas comerciais e acompanham a dinâmica cambial e tarifária.
Na Univali, a análise conecta sala de aula e mercado, aproximando estudantes e comunidade acadêmica de um cenário em transformação contínua. A leitura estratégica dos conflitos internacionais ilumina oportunidades e antecipa impactos – competência central para quem atua com negócios globais.
“Conflitos internacionais – bélicos, tarifários ou cambiais – historicamente reconfiguram o comércio mundial. A crise financeira de 2008 e disputas comerciais recentes exemplificam como choques sistêmicos alteram fluxos, custos e decisões de investimento”, contextualiza o professor.
Segundo ele, em um ambiente de interdependência, a geopolítica deixa marcas diretas no cotidiano econômico, do abastecimento de energia ao preço final de produtos.


