Egresso da Univali transforma estrada em projeto de vida e cruza fronteiras em triciclo adaptado
Cadeirante desde os 18 anos, Giuliano Nogaroli acumula recordes e feitos inéditos em expedições de alta complexidade

Foto: Arquivo Pessoal | #PraTodosVerem: Foto de um homem em uma cadeira de rodas adaptada acenando em uma rua de terra entre montanhas coloridas.Para Giuliano Nogaroli, 48 anos, viajar nunca foi apenas chegar a um destino. É um modo de existir. Aventureiro, atleta, empreendedor e amante da natureza, o egresso da Universidade do Vale de Itajaí (Univali) transformou a estrada em projeto de vida e, desde 2022, percorre países da América do Sul em um triciclo adaptado, acumulando quilômetros, encontros e histórias.
Paisagens extremas, mais de 50 mil quilômetros percorridos e muita estrada pela frente. Cadeirante desde 1996, Giuliano já realizou travessias como o percurso do Oceano Atlântico ao Pacífico, passando pela Cordilheira dos Andes e pelo Deserto do Atacama.
Entre os desafios mais emblemáticos da jornada está a travessia do lendário Camino de la Muerte, na Bolívia. Encarar a estrada de precipícios estreitos e curvas fechadas foi mais do que um teste físico. “Não é só coragem. É algo difícil de explicar. Cada curva mostrou que muitos limites existem na mente”, relata. A descida, realizada em dezembro de 2025, marcou Giuliano como o primeiro cadeirante a percorrer o trajeto em um triciclo adaptado.
Foto: Arquivo Pessoal | #PraTodosVerem: Foto em perspectiva de primeira pessoa do painel de um triciclo amarelo em uma estrada de terra à beira de um precipício.Da formação na Univali às grandes travessias
Nascido em Morretes (PR), ele passou a infância entre Paranaguá e São João do Triunfo até se mudar, ainda pequeno, para Barra Velha, no litoral norte catarinense. Foi na região que construiu suas referências e realizou sua formação em Itajaí, do Colégio de Aplicação à graduação na Univali. O deslocamento, aliás, sempre fez parte da sua vida. Ainda criança, pedalava longas distâncias até cidades vizinhas, acampava com amigos e explorava trilhas e estradas quando a BR-101 ainda era pista simples.
Em 1996, aos 18 anos, esse percurso sofreu uma inflexão decisiva. Giuliano sofreu um grave acidente na BR-101, ainda não duplicada à época. Ao perder o controle do veículo, saiu da pista e capotou. O impacto provocou a fratura de quatro vértebras e a perfuração do pulmão por uma costela, deixando como consequência o uso permanente da cadeira de rodas.
O espírito aventureiro, que hoje o leva a cruzar fronteiras, encontrou no esporte uma forma de disciplina e permanência. Giuliano voltou rapidamente às quadras. Atuou por anos no basquete em cadeira de rodas, integrou a Seleção Brasileira, competiu em campeonatos estaduais e nacionais e ampliou sua trajetória esportiva para modalidades como natação e handebol. Em 2019, foi campeão brasileiro e estadual de natação e recebeu a Medalha Gustavo Kuerten – Atleta do Ano.
Foto: Arquivo Pessoal | #PraTodosVerem: Foto em close de dois homens sorrindo, um deles segurando a medalha do "Troféu Gustavo Kuerten 2019".“O esporte sempre trabalhou muito a cabeça”, resume. Foi essa preparação mental que, anos depois, se mostraria essencial para a estrada.
Formado em Administração pela Univali, Giuliano também possui pós-graduação em Controladoria e um MBA em Marketing e Finanças. Ao longo da vida profissional, atuou no setor bancário e, posteriormente, seguiu o caminho do empreendedorismo. Atualmente, é empresário e sócio de uma loja de esportes em Barra Velha (SC), mantida em parceria com o irmão.
Com o passar do tempo, optou por se afastar da operação cotidiana do negócio. A decisão veio pouco antes da pandemia junto à percepção de que o acúmulo de compromissos já não fazia sentido diante do modo de vida que buscava construir. Então, resolveu se afastar da administração da loja e experimentar um modo de vida mais simples.
“Chega um momento em que você percebe que quanto mais coisas tem, mais precisa trabalhar para manter tudo isso”, reflete.
Sem romper com a atividade empresarial, reorganizou prioridades e passou a dedicar mais tempo às viagens, assumindo um ritmo mais alinhado à liberdade e à autonomia que a estrada passou a representar.
Foto: Arquivo Pessoal | #PraTodosVerem: Foto de um homem montado em seu triciclo amarelo posicionado em frente a uma formação rochosa avermelhada.As primeiras viagens aconteceram de caminhonete, com um pequeno trailer e a companhia inseparável dos cachorros.
“Eles são os melhores amigos. Nos entendem mais do que muita gente. Não precisam de palavras para nos acalmar ou alegrar: basta estarem ali, do nosso lado. E o que pedem em troca? Apenas estar com a gente”, afirma.
Eram deslocamentos curtos, de 15 a 20 dias, pelo Sul do Brasil, sempre em busca de lugares mais isolados. A experiência, inicialmente pontual, foi ganhando espaço até se transformar em permanência. Quanto mais tempo fora de casa, mais claro ficava que viajar não era pausa e sim uma escolha.
O triciclo adaptado, que hoje chama atenção por onde passa, tem uma história de espera, persistência e afeto. A primeira tentativa de compra, ainda em 2010, terminou sem a entrega do veículo.
“A empresa quebrou e eu nunca recebi o veículo até hoje, mesmo tendo pago tudo”, lamenta.
Anos depois, já decidido a retomar o projeto, Giuliano encontrou em Curitiba o triciclo que viria a se tornar seu companheiro de estrada. Durante o processo de adaptação, contou com o apoio constante do primo Cássio, com quem planejava viajar pelo Brasil e pela América do Sul.
Foto: Arquivo Pessoal | #PraTodosVerem: Foto de um triciclo amarelo adaptado estacionado sobre a imensidão branca de um deserto de sal sob céu azul.A pandemia interrompeu os planos e trouxe uma perda profunda. Cássio faleceu em 2020, aos 47 anos. Quando o triciclo ficou pronto, Giuliano decidiu que ele carregaria a memória do primo. Pintado em amarelo – a cor da motocicleta Harley-Davidson de Cássio – o veículo foi batizado de Kassius Amarillo em sua homenagem.
“Viajar com o triciclo é levar um pedaço dele comigo”, resume.
Andes, Atacama, outros recordes e mais de 50 mil quilômetros
A virada definitiva aconteceu em novembro de 2022, quando Giuliano partiu sozinho rumo ao Deserto do Atacama. Com barraca, saco de dormir, uma caixa adaptada como cozinha e tudo o que precisava para viver na estrada, ele cruzou fronteiras e encarou o primeiro grande teste logo nos primeiros dias. Em uma estrada secundária da Argentina, percebeu que havia perdido uma das rodas da cadeira de rodas. Sem peça reserva, sem sinal e com o triciclo apresentando falhas mecânicas, precisou lidar com a incerteza em um dos momentos mais difíceis da viagem.
Foto: Arquivo Pessoal | #PraTodosVerem: Foto de um homem atravessando um rio com seu triciclo amarelo, auxiliado por outra pessoa em pé na água.“Foi ali que eu entendi que a viagem não era sobre controle, mas sobre continuar”, lembra. A solução veio com ajuda local, improvisos e paciência – uma combinação que se repetiria muitas vezes ao longo do caminho.
Esse feito tornou Giuliano o primeiro cadeirante a cruzar sozinho, em um triciclo adaptado, o trajeto do Oceano Atlântico ao Pacífico, atravessando a Cordilheira dos Andes e o Deserto do Atacama – um feito que reforça sua defesa de que a aventura também pode e deve ser inclusiva.
Só nessa viagem, foram mais de 50 mil quilômetros, passando por Brasil, Paraguai, Argentina, Chile e Bolívia. O triciclo foi o primeiro a ultrapassar os 5 mil metros de altitude em alguns trechos da Cordilheira dos Andes. Pelo caminho, acumulou paisagens extremas, amizades improváveis e histórias que surgem justamente nos momentos de dificuldade. “É nos perrengues que aparecem as pessoas mais incríveis”, conta.
Foto: Arquivo Pessoal | #PraTodosVerem: Foto de um homem sorridente em sua cadeira de rodas posando ao lado de uma placa de sinalização em terreno rochoso.No total, foram 96 dias de estrada – a expedição mais longa até agora – realizada entre novembro de 2022 e o final de fevereiro de 2023. Em seguida, Giuliano se aventurou por 56 dias, entre março e maio de 2024, pelas regiões Sul e Centro-Oeste. Nessa etapa, saiu de Santa Catarina e passou por Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Distrito Federal e Minas Gerais, retornando ao Estado pelo litoral do Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná.
A viagem mais recente, com passagens por Paraguai, Argentina e Bolívia, teve duração de 78 dias em 2025 e incluiu a travessia do Camino de la Muerte, na Bolívia.
“Cada trajeto vai ensinando algo diferente. Nem sempre é sobre ir mais longe, mas sobre seguir aprendendo”, suspira.
Agora, Giuliano projeta a Austrália como um projeto possível – um continente que ele descreve como um universo de contrastes naturais e desafios. Entretanto, a próxima viagem longa deve ocorrer apenas no final do ano. Até lá, o roteiro segue em aberto – porque, na estrada, os desafios nem sempre são escolhidos. Às vezes, são eles que escolhem o viajante.
Repercussão, redes sociais e próximos destinos
A repercussão das viagens ultrapassou a estrada. Giuliano mantém um perfil no Instagram, onde compartilha trechos da jornada e reúne quase 40 mil seguidores. É dali que surgem mensagens que, segundo ele, dão sentido ao caminho. “Quando recebo relatos de pessoas que se sentem motivadas, é isso que coloca mais combustível nos meus desafios. É isso que me transforma”, afirma.
“As rotas podem até ser planejadas, mas o trajeto se ajusta ao que a estrada oferece”, relata. Mais do que cruzar países, Giuliano percebe que sua jornada provoca reflexos em quem acompanha de longe. Nas redes sociais e nas conversas pelo caminho, recebe mensagens de outras pessoas com deficiência que passaram a viajar depois de conhecer sua história. “É uma sementinha que vai sendo plantada”, diz.
Egresso da Univali, ele carrega da formação universitária e do esporte uma visão de mundo que valoriza autonomia, aprendizado contínuo e adaptação. Para Giuliano, a cadeira de rodas nunca foi limite, mas ferramenta.
Foto: Arquivo Pessoal | #PraTodosVerem: Foto de um homem em cadeira de rodas acompanhando o conserto de um triciclo amarelo em uma calçada.“Ela transformou minha vida. Se não fosse a cadeira, talvez eu não tivesse feito metade do que fiz”, afirma.
Enquanto a estrada segue aberta, Giuliano continua em movimento – com o essencial na bagagem, um livro sempre por perto e a convicção de que viajar não é apenas deslocamento. É encontro: com lugares, com pessoas e com aquilo que realmente sustenta o caminho.
Foto: Arquivo Pessoal | #PraTodosVerem: Foto noturna de um homem em sua cadeira de rodas ao lado de um triciclo e uma barraca iluminada em um deserto de sal.

