326 microplásticos, quatro praias e uma pergunta urgente sobre o litoral de Itajaí
Pesquisa de estudante do Colégio de Aplicação da Univali encontra partículas em 100% das áreas analisadas e conecta alerta local ao maior mapeamento já realizado no Brasil

Foto: Divulgação | #PraTodosVerem: Imagem de uma pessoa manuseando um quadrante de madeira e uma pá de coleta durante pesquisa na areia.Um levantamento conduzido pela estudante do Ensino Médio do Colégio de Aplicação da Universidade do Vale do Itajaí (Univali/CAU), Ana Cristina Kowalsky, 17 anos, identificou 326 partículas de microplásticos na areia de quatro praias de Itajaí — Atalaia, Jeremias, Cabeçudas e Praia Brava.
A presença de microplásticos em todos os pontos analisados amplia o alerta sobre o litoral de Itajaí. O levantamento também chama atenção por ter sido desenvolvido ainda no ensino médio e por dialogar com o maior estudo já realizado no país sobre o tema, reforçando o papel da Univali na produção de conhecimento com impacto social.
Foto: Divulgação | #PraTodosVerem: Imagem em detalhe de mãos utilizando uma pá e um saco plástico para coletar microplásticos na areia.Universidade, território e formação científica
A coleta foi realizada durante o inverno de 2025, período de menor fluxo de banhistas, o que amplia o alcance do alerta. Mesmo em uma análise considerada superficial, os microplásticos apareceram de forma recorrente. “Encontramos microplásticos em todas as praias, o que é um sinal negativo”, afirmou a estudante em entrevista ao jornal Diarinho.
O resultado mais surpreendente surgiu na praia de Jeremias, que apresentou a maior concentração de partículas, apesar de não figurar entre as mais frequentadas da cidade. Para Ana, o dado desmonta a associação automática entre poluição e presença humana direta. “A presença de microplásticos na areia das praias não está apenas relacionada com a quantidade de visitantes, tem muitos outros fatores envolvidos”, explica a estudante. Segundo ela, características físicas do ambiente costeiro, como o fato de a praia ser mais fechada, favorecem a retenção desses resíduos.
Foto: Divulgação | #PraTodosVerem: Foto de um quadrante de madeira posicionado sobre a areia da praia para delimitação de coleta.O estudo também evidencia uma lacuna estrutural. Durante a pesquisa, Ana relata dificuldade em acessar dados oficiais de monitoramento ambiental das praias de Itajaí.
“Precisamos de mais incentivo ao monitoramento ambiental, principalmente no que se refere ao ambiente costeiro, já que somos uma cidade no litoral e bastante turística”, avalia.
“O CAU tem como princípio aproximar o estudante da ciência real, aquela que observa o território, formula perguntas e produz conhecimento com impacto social. Esse estudo mostra que a escola também é espaço de pesquisa, reflexão crítica e compromisso com o futuro”, afirma a diretora do Colégio de Aplicação da Univali, professora Artele Kumm.
Do litoral local ao cenário nacional
O alerta local encontra eco em escala nacional. O projeto MicroMar, maior pesquisa já realizada no Brasil sobre microplásticos em praias, percorreu 7.500 quilômetros de costa, analisou 1.024 praias em 17 estados e identificou partículas em 709 delas — 69% do total. Em média, foram encontradas 27 partículas por quilo de areia. O estudo, financiado com R$ 1 milhão do CNPq e liderado pelo Instituto Federal Goiano, envolveu cerca de 50 pesquisadores, nove expedições científicas e mais de 4.100 amostras coletadas entre abril de 2023 e abril de 2024.
De acordo com o coordenador do projeto, Guilherme Malafaia, pesquisas como essa ajudam a dar visibilidade científica a um problema que já deixou de ser ignorado: os microplásticos são hoje um novo marcador ambiental. O estudo aponta que praias com formato mais fechado tendem a reter mais partículas, além de identificar correlação com proximidade de áreas urbanas, portos, rodovias, rios poluídos e canais de esgoto — fatores que ajudam a contextualizar os resultados observados em Itajaí.
Para o orientador pedagógico do Ensino Médio do CAU, Anderson Jocemar Moura, o trabalho da Ana reforça a importância da iniciação científica desde cedo. “Quando uma estudante do ensino médio consegue produzir dados que dialogam com pesquisas nacionais de grande escala, isso mostra a potência da iniciação científica desde cedo. Este estudo revela não só um problema ambiental relevante, mas também a capacidade crítica e investigativa que buscamos formar no Colégio de Aplicação da Univali”, indica.
Saúde humana no horizonte da discussão
Para além do impacto ambiental, o tema avança sobre a saúde humana. Ana Kowalsky destaca que pesquisas recentes já identificam microplásticos no ar e até no leite materno.
“Não são um risco apenas para a vida marinha, mas também para nós, seres humanos”, afirma.
Essa preocupação dialoga com debates já conduzidos pela Univali em outras frentes, como o alerta da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre o uso de glitter de plástico em alimentos.
Segundo a professora Cinthia Lira Sant’Ana, farmacêutica responsável pela Farmácia Escola da Univali e docente do curso de Farmácia, a ingestão de partículas plásticas – tanto por animais quanto por humanos – pode trazer efeitos cumulativos. “Plásticos ingeridos, mesmo em pequenas quantidades, podem acumular-se no organismo e causar inflamações, alterações no metabolismo e potencial interferência no sistema imunológico ao longo do tempo”, explica.
Nesse contexto, a pesquisa desenvolvida no CAU ganha dimensão estratégica. Mesmo sendo um primeiro passo, como ressalta a própria autora, o estudo abre caminho para novas análises, amplia o debate público e reforça a vocação da Univali como espaço onde educação básica, ciência e compromisso com o território caminham juntos.
Ao revelar que os microplásticos já fazem parte da paisagem arenosa de Itajaí, o trabalho não encerra o tema. Pelo contrário: insere a cidade, a universidade e sua comunidade acadêmica em uma conversa mais ampla, que atravessa o litoral brasileiro, desafia políticas públicas e convida a sociedade a olhar para o que permanece depois que a maré baixa.
Foto: Divulgação | #PraTodosVerem: Foto de uma pessoa agachada utilizando uma pá para recolher sedimentos de dentro de uma moldura na praia.Mais informações:
CAU – Colégio da Aplicação da Univali
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