Madrugadas e manhãs estão mais quentes em Itajaí
Professor da Univali analisa registros de temperatura nos últimos 40 anos

As temperaturas mínimas, em Itajaí, vêm subindo nos últimos anos, segundo análise do professor da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), Sergey Alex de Araújo. Para chegar a esta conclusão, o pesquisador levou em conta registros coletados, entre 1981 e 2025, nas estações do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina/Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidrometeorologia (Epagri/Ciram).
Ao analisar dados referentes as últimas quatro décadas (ilustrados no gráfico 1), quando iniciaram os registros de temperaturas em Itajaí, nota-se que a média das temperaturas máximas (identificadas pela cor cinza escuro) apresentaram menor variação e tendência estável. Já a média das temperaturas mínimas subiu a cada década com linha de tendência apontando para uma elevação.
GRÁFICO 1 #ParaTodosVerem: Gráfico ilustra, em tons de cinza, dados que contemplam a variação das temperaturas médias entre os anos de 1981 e 2025.“Neste sentido, os dados dos últimos anos na região revelam que Itajaí não apresenta anormalidade para as temperaturas máximas, que correspondem aos picos de calor no período da tarde, mas sim para as mínimas, que são as temperaturas registradas durante a madrugada e as primeiras horas da manhã. No primeiro caso, as médias mantiveram-se em torno de 26 graus, enquanto as mínimas subiram de 16 para 18 graus”, observa o pesquisador.
Responsável pelo Laboratório de Climatologia (LabClima) da Univali, que fornece informações sobre clima e previsão do tempo em Itajaí, há 28 anos o professor Sergey acompanha de perto os dados climáticos coletados pela estação local, instalada no bairro Itaipava.
#ParaTodosVerem: Fotografia mostra homem usando óculos e camiseta branca. Ele está numa sala clara e há uma prateleira com livros ao fundo. Planeta está mais quente
O relatório Estado do Clima Global 2025, da Organização Meteorológica Mundial (OMM), divulgado em março deste ano, apontou os últimos 11 anos como sendo os mais quentes já registrados desde quando iniciaram as medições oficiais no planeta, datadas de 1850. O documento mostra que 2025 teria sido um dos anos mais quentes já registrados, com cerca de 1,43 grau Celcius acima dos níveis pré-industriais, registrados entre 1850 e 1900, considerados como referência para o aumento da temperatura global.
Na ocasião, a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, afirmou que as altas temperaturas da terra e do oceano contribuíram para eventos climáticos extremos, tais como ondas de calor, chuvas intensas e ciclones tropicais de grande intensidade, ressaltando a necessidade vital de sistemas de alerta precoce.
Foto: iStock/bymuratdenniz #ParaTodosVerem: Fotografia mostra mulher, numa sala clara e bem iluminada. Ela está segurando um controle remoto em direção a um aparelho de ar-condicionado. “O monitoramento do estado das mudanças climáticas realizado pela OMM, baseado na coleta colaborativa e cientificamente rigorosa de dados globais, é mais importante do que nunca, porque precisamos garantir que as informações sobre a Terra sejam confiáveis, acessíveis e úteis para todos”, afirmou a representante da organização.
Itajaí registrou temperaturas altas entre 2014 e 2019
No entanto, ao avaliar os dados de temperatura coletados em Itajaí, entre 2014 e 2025, é possível constatar que os anos de temperaturas mais elevadas estiveram concentrados no período entre 2014 e 2019. Segundo o professor da Univali, nestes anos foram registradas, na média, temperaturas 1,3 °C acima da média histórica da região (dados ilustrados no gráfico 2).
GRÁFICO 2 #ParaTodosVerem: Gráfico ilustra, em tons de cinza, com dados que contemplam a variação das temperaturas médias entre os anos de 2014 e 2025.“Inclusive, o ano passado apresentou uma queda de 0,3°C em relação a média histórica da região. Observamos esta queda também em 2021, que ficou 0,1 °C abaixo da temperatura média registrada em Itajaí.”
Por aqui, os dados coletados apontam que a variação da temperatura média anual ficou 0,8 °C acima da média histórica nos últimos 11 anos.
“Já quando consideramos os últimos cinco anos, estes registros ficaram apenas 0,1 °C acima da média já registrada na estação local.”, analisa o professor da Univali.
O pesquisador relembra que a partir de 2020 a região foi acometida por mais períodos de La Niña e de neutralidade climatológica, o que na sua visão explicaria uma parte destes dados, já que o fenômeno para a região costuma representar temperaturas mais amenas. No entanto, embora tenha influência sobre as temperaturas, o fenômeno não daria conta de explicar tudo, segundo o pesquisador.
“Entre os possíveis fatores para explicar estes dados, poderíamos considerar os efeitos da nebulosidade, entrada e permanência de massas de ar mais frias e a mudança no albedo, que seria a capacidade da superfície em refletir a luz solar, aspecto que varia conforme práticas humanas de uso da Terra.”, afirma.
Percepção de calor
O pesquisador da Univali também exemplifica como a percepção de calor da população nem sempre corresponde à temperatura registrada oficialmente pela estação meteorológica.
Foto: IStock #ParaTodosVerem: Fotografia mostra vista aérea de faixa de areia, mar e morros com área urbana ao fundo.“Um exemplo foi o mês de janeiro deste ano, no qual as ondas de calor marcaram a memória das pessoas como sendo de um mês muito mais quente que o normal. No entanto, ao nos debruçarmos sobre os dados, vimos que janeiro de 2026 ficou 0,8 °C abaixo da média histórica, ou seja, se olharmos as temperaturas médias registradas foi um mês mais fresco que em anos anteriores.”
Sobre o Lab Clima
As informações fornecidas pelo Lab Clima da Univali são resultado de interpretações de modelos climáticos, meteorológicos, cartas sinóticas, imagens de satélites e dados meteorológicos disponibilizados por institutos nacionais e internacionais de meteorologia e climatologia. As informações são disponibilizadas, de forma gratuita, pelo blog Lab Clima, que também pode ser acessado pelo site univali.br.
Para realizar este trabalho, a equipe do Lab Clima leva em conta dados de órgãos como o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), Centro de Hidrografia da Marinha (CHM), Rede de Meteorologia do Comando da Aeronáutica (Redemet), European Centre for Medium-Range Weather Forecasts (ECMWF), Air Resources Laboratory’s/National Oceanic and Atmospheric Administration (ARL/NOAA), Center for Weather and Climate Prediction/National Weather Service (NCEP/NOAA) e International Research Institute for Climate and Society/Earth Institute/Columbia University (IRI/Columbia).
O Lab Clima desenvolve atividades de pesquisa, extensão e educação na área de climatologia e meteorologia, vinculados aos cursos de Oceanografia e Engenharia Ambiental e Sanitária, da Escola Politécnica da Univali. Além disso, também atende acadêmicos de mestrado e doutorado do Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia Ambiental (PPGCTA).
Mais informações: com o professor Sergey Alex de Araújo pelo e-mail sergey@univali.br ou labclima@outlook.com.



