Além do esquecimento: em sintonia com o Fevereiro Roxo, Univali destaca a importância do diagnóstico precoce
Pesquisadora da universidade detalha como identificar sinais de Alzheimer, Lúpus e Fibromialgia

O tempo corre de forma diferente para quem convive com o Alzheimer, o Lúpus ou a Fibromialgia. Sob o manto do Fevereiro Roxo, a cor que simboliza a conscientização sobre doenças crônicas e incuráveis, a Universidade do Vale do Itajaí (Univali) contribui com a tradução do silêncio dos sintomas em esperança e cuidado.
“Mais do que uma campanha de calendário, a iniciativa busca alfabetizar o olhar da população para sinais que, muitas vezes, passam despercebidos entre as frestas da rotina familiar, transformando o conhecimento acadêmico em ferramenta de sobrevivência”, afirma a pesquisadora em Farmacologia Experimental da Univali, professora Márcia Maria de Souza.
A "Gramática do Alzheimer" e os sinais de alerta
O Alzheimer, frequentemente reduzido ao simples conceito de "perda de memória", é descrito pela ciência como uma complexa desconstrução da identidade. A professora Márcia explica que a patologia se manifesta através do que chama de "Doença dos As": Amnésia (perda de memória recente), Afasia (dificuldade de fala), Agnosia (incapacidade de reconhecer objetos) e Apaxia (perda de funções motoras programadas).
"O Alzheimer é como se tirasse a alma da pessoa. Quando você perde a sua identidade de memória, você não sabe mais quem você é", pontua.
A pesquisadora, que atua na linha de frente da Neuropsicofarmacologia, destaca que o diagnóstico no Brasil ainda é eminentemente clínico e demanda atenção redobrada dos familiares.
"A nossa identidade é baseada na memória. O indivíduo vai perdendo isso e, no início, ele tem consciência de que sua história está indo embora", conta.
Foto: FG Trade Latin / iStock | #ParaTodosVerem: A imagem mostra, em um plano fechado e de cima, as mãos entrelaçadas de um casal de idosos repousando sobre um álbum de fotografias antigas.A Ciência a serviço da qualidade de vida
Embora ainda não exista cura para o Alzheimer, a Univali atua de forma consistente na produção de conhecimento científico voltado à qualidade de vida e à compreensão dos mecanismos da doença. A professora Márcia reforça que as pesquisas desenvolvidas na universidade são exclusivamente pré-clínicas, respeitando rigorosamente os limites éticos e regulatórios da ciência.
Entre os resultados mais promissores estão estudos com o taraxerol, o ácido úsnico — substância obtida a partir da simbiose entre algas e fungos — e o plumierídeo, investigado em uma dissertação de mestrado do Programa de Pós-Graduação (PPG). A pesquisadora também integra um amplo projeto institucional, financiado pela FAPESC, dedicado ao estudo do potencial neuroprotetor da planta Tagetes erecta.
“Os resultados ainda não foram publicados, mas são cientificamente muito relevantes”, afirma.
Ela ressalta que, até o momento, não há pesquisas da Univali com produtos canábicos voltadas ao Alzheimer, tampouco ensaios clínicos com pacientes. Há, no entanto, investigações em andamento com outras moléculas, em cooperação internacional, sempre no campo experimental.
Segundo a especialista, o foco não é apenas o paciente, mas o ecossistema que o cerca, já que o desgaste dos cuidadores é um dos grandes desafios de saúde pública atuais.
Raízes do Conhecimento
O Alzheimer foi identificado pela primeira vez pelo médico alemão Alois Alzheimer em 1906. Desde então, a ciência evoluiu do diagnóstico pós-morte para estratégias de prevenção baseadas em "reserva cognitiva". Estudos apontam que quanto maior o nível de atividade intelectual, interação social e aprendizagem contínua ao longo da vida, mais tardio é o aparecimento dos sintomas clínicos.
Lúpus e Fibromialgia: quando o corpo entra em conflito
O Fevereiro Roxo também lança luz sobre o Lúpus e a Fibromialgia, condições que, apesar de distintas, compartilham o fardo do diagnóstico tardio. A professora Márcia esclarece que o Lúpus é uma "pane" no sistema imunológico, onde o corpo ataca a si mesmo, exigindo tratamentos severos com imunossupressores. Já a Fibromialgia é descrita como uma dor neuropática persistente, onde os nervos ficam hipersensibilizados.
"Na fibromialgia, a informação de dor está sendo enviada ao cérebro mesmo sem uma lesão física aparente. É um sistema em alerta constante", explica a doutora.
Ela ressalta que a Univali tem acompanhado de perto as novas terapias, como o uso de fármacos anticonvulsivantes e canabinoides, que apresentam resultados promissores no bloqueio dessas mensagens dolorosas, devolvendo a funcionalidade aos pacientes.
Ciência com propósito
O avanço das doenças neurodegenerativas e autoimunes é, acima de tudo, um desafio de humanidade. Ao investir em pesquisa pré-clínica rigorosa e formação científica qualificada, a Univali reafirma seu compromisso com uma ciência responsável, conectada às necessidades reais da população.
Para a professora Márcia Maria de Souza, ampliar o acesso à informação é parte essencial desse processo. “A conscientização é o primeiro passo para o cuidado. O conhecimento permite reconhecer sinais, buscar ajuda e construir redes de apoio”, conclui.
Assim, a universidade fortalece seu papel como agente de produção científica e de impacto social, contribuindo para que o diagnóstico seja compreendido não como um encerramento, mas como um ponto de partida para o cuidado continuado.


