Univali alerta para risco de toxicidade e sequelas graves em "canetas emagrecedoras" clandestinas em SC
Com autoridade nacional, especialista da Universidade analisa os perigos químicos de substâncias sem registro e o impacto do armazenamento irregular após operações policiais em Joinville e Lages

A recente ofensiva contra o mercado ilegal de emagrecimento em Santa Catarina acendeu um alerta vermelho na comunidade acadêmica e científica. Após a Operação Heavy Pen, da Polícia Federal, desarticular laboratórios e fechar clínicas em Joinville e Lages no início de abril, a Univali (Universidade do Vale do Itajaí) traz a público uma análise técnica sobre os riscos invisíveis que podem causar danos irreversíveis à saúde.
O cenário estadual é alarmante: além das apreensões de substâncias sem registro, como a Retatrutida, Santa Catarina registrou recentemente casos de efeitos neurológicos graves associados ao uso de canetas irregulares. O movimento coincide com a nova diretriz da Anvisa, que anunciou nesta semana o aumento da fiscalização sobre farmácias de manipulação em todo o país para barrar a produção de injetáveis fora dos padrões sanitários.
Crédito: iStock Svitlana Pietukhova #ParaTodosVerem: imagem mostra mulher aplicando injeção no abdômenO perigo do "isopor" e a degradação química
Um dos pontos mais críticos revelados pelas investigações em Santa Catarina foi o armazenamento de medicamentos injetáveis em caixas de isopor, sem controle rigoroso de temperatura. Para o professor da Univali José Roberto Santin, que é vice-presidente da Sociedade Brasileira de Toxicologia e docente dos cursos de Biomedicina, Medicina, Farmácia e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas da instituição, essa falha transforma o remédio em veneno.
"No caso do armazenamento inadequado, especialmente de medicamentos biológicos, o problema é estrutural e químico. Esses produtos dependem de temperaturas específicas para manter a estabilidade. Quando armazenados sem controle térmico, sofrem desnaturação e degradação, gerando impurezas ou subprodutos com potencial imunogênico ou até tóxico. Na prática, o produto deixa de ter o efeito esperado e passa a representar um risco adicional ao paciente", explica Santin.
Mercado paralelo já é problema de saúde pública em SC
A Toxicologia explica que o uso de produtos clandestinos coloca o paciente em um "escuro" científico. Como a operação policial identificou a venda de moléculas ainda em fase de testes ou sem registro na Anvisa, as reações do corpo humano tornam-se imprevisíveis. Segundo o especialista da Univali, o conteúdo das canetas pode nem sequer corresponder ao que está escrito na embalagem.
"Os efeitos neurológicos observados podem ser explicados por mecanismos como a dose inadequada ou, o que é mais grave em cenários irregulares, a contaminação e adulteração. Não há garantia de que o conteúdo corresponda ao rótulo, sendo plausível a presença de outras substâncias farmacologicamente ativas ou até compostos tóxicos. O crescimento desse mercado paralelo em nosso estado já é um problema crítico de saúde pública", destaca o professor.
O papel comunitário e a segurança do consumidor
Como instituição comunitária, a Univali reforça que a informação técnica é a principal barreira contra fraudes que colocam a vida em risco. Por isso, para o professor Santin, o consumidor deve exercer um papel ativo de fiscalização antes de qualquer aplicação.
"A informação é uma ferramenta essencial de proteção. O consumidor deve desconfiar de produtos vendidos por redes sociais, sem prescrição médica ou com preços muito abaixo do mercado. Embalagens sem lote, validade ou com falhas na cadeia de refrigeração são sinais claros de irregularidade. Medicamentos injetáveis exigem rigor absoluto, e sua aquisição deve ocorrer exclusivamente por vias regularizadas para evitar danos irreversíveis", finaliza o especialista.



