Univali analisa a nova NR-1: o fim da era em que o estresse era "culpa" do trabalhador
Nova regra exige líderes mais humanos e ambientes que priorizem o equilíbrio real

Para a Universidade do Vale do Itajaí (Univali), a inclusão dos riscos psicossociais na Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) não é apenas uma mudança técnica, mas o fim de um ciclo de silenciamento nas empresas brasileiras. De acordo com a professora Luciane Gobbo Brandão, coordenadora do curso de Psicologia no campus de Balneário Camboriú, a nova regra tira o peso das costas do indivíduo e o coloca na cultura das organizações.
“Durante muitos anos, o sofrimento psíquico no trabalho foi tratado como algo individual. Como se a pessoa não estivesse dando conta, fosse fraca ou não soubesse lidar com pressão. Quando a gente traz os riscos psicossociais para dentro da NR-1, a gente muda completamente essa lógica”, reforça a docente.
Crédito: iStock/Wasan Tita #ParaTodosVerem: imagem mostra uma pessoa consolando outra em um ambiente formal de trabalho. Entre a lei e a prática
O posicionamento da universidade surge em um momento de incerteza nacional. Recentemente, o governo voltou a sinalizar possíveis adiamentos na fiscalização da norma, gerando um debate sobre até onde as empresas estão realmente preparadas para serem punidas por danos à saúde mental.
Contudo, para a professora Luciane, o relógio da cultura organizacional corre em outro ritmo e exige mais do que apenas evitar multas:
“As empresas precisam estar dispostas a rever a forma como se relacionam com as pessoas. Isso envolve liderança, comunicação, respeito e, principalmente, coerência entre discurso e prática."
Formação para um mercado que "constrói junto"
A Univali tem provocado seus estudantes de Psicologia a saírem do consultório isolado para dialogarem com o RH, o jurídico e os sindicatos. A visão compartilhada pela coordenação do campus de Balneário Camboriú é de que a saúde mental no trabalho é um tema interdisciplinar: envolve leis, economia e, acima de tudo, relações humanas.
“O grande desafio é fazer com que a NR-1 não vire só mais um documento, mas uma prática real, que transforme o ambiente de trabalho em um espaço mais saudável. Isso só acontece quando diferentes áreas assumem essa responsabilidade”, finaliza a professora.
O olhar da Univali deixa claro: com ou sem multas de Brasília, a era do amadorismo na gestão de pessoas acabou. Ao colocar a saúde mental no centro da estratégia, a NR-1 deixa de ser um simples check-list para se tornar a base de empresas que entenderam que não existe produtividade sem cuidado humano.


