Professor de Londres debate impacto da pós-graduação na sociedade
Tristan McCowan participou de seminário internacional realizado pela Univali

Foto: Dales Hoeckesfeld | #PraTodosVerem: A foto mostra um homem de óculos e camisa cinza gesticulando com as mãos em pé ao lado de uma tela de projeção.“Como medir as transformações que a universidade gera na sociedade?” A pergunta orientou a participação do professor Tristan McCowan, da University College London (UCL), em um seminário internacional que avaliou o impacto e a popularização do conhecimento gerado pelos Programas de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Vale do Itajaí (Univali) e da Universidade de Caxias do Sul (UCS).
O pesquisador colocou em discussão os limites das métricas usadas para avaliar o impacto das universidades e os riscos de transformar em números processos que acontecem ao longo de anos e em diferentes escalas.
“Uma pesquisa pode levar anos para produzir efeitos e uma transformação profunda na vida de uma pessoa, e esse indicador pode representar uma escala pequena na avaliação da universidade. A avaliação precisa reconhecer essas diferentes dimensões sem induzir a universidade a produzir apenas aquilo que é mais fácil de medir”, afirmou McCowan.
A reflexão apresentada pelo pesquisador da UCL abriu a programação do Seminário Internacional Avaliação do Impacto e Popularização do Conhecimento na Pós-Graduação em Educação que reuniu, além de pesquisadores da UCS e da Univali, representantes de diferentes segmentos sociais. O encontro discutiu como a produção da pós-graduação chega às escolas, instituições, políticas públicas e sociedade e de que forma esses efeitos podem ser reconhecidos na avaliação universitária.
Foto: Dales Hoeckesfeld | #PraTodosVerem: A foto mostra um grupo de pessoas sentadas em uma sala, com uma mulher sorrindo em primeiro plano segurando uma caneta.O que os indicadores não mostram
A discussão sobre impacto ganhou diferentes perspectivas ao longo dos dois dias do evento, realizado na segunda e terça, 5 e 6, no Campus Professor Edison Villela (Itajaí) da Univali. McCowan apresentou experiências de avaliação da pesquisa no Reino Unido e problematizou a pressão por resultados que possam ser demonstrados rapidamente.
A coordenadora da pesquisa na UCS, professora Nilda Stecanela, trouxe para o debate os resultados de uma pesquisa sobre as trajetórias de egressos-professores da Educação Básica. O estudo acompanhou profissionais que, depois da formação em programas de pós-graduação, permanecem ou retornam às escolas e incorporam conhecimentos da pesquisa à prática pedagógica.
Foto: Dales Hoeckesfeld | #PraTodosVerem: A foto mostra uma mulher de cabelo curto vermelho gesticulando com a mão aberta enquanto fala numa mesa.Entre os efeitos identificados estão mudanças na forma de ouvir estudantes e famílias, maior autonomia profissional, uso mais qualificado de conhecimentos científicos e participação em discussões sobre decisões das redes de ensino. São transformações que podem não aparecer nos indicadores tradicionais de produção acadêmica, mas repercutem na prática da professora, na aprendizagem dos alunos e na relação da escola com as famílias.
“Quando um professor retorna para a escola e passa a olhar para os estudantes de outra maneira, questiona práticas estabelecidas e transforma sua atuação, existe um impacto. O título acadêmico é um resultado visível, mas a transformação profissional acontece ao longo do tempo”, destacou.
Conhecimento que chega à sociedade
A popularização da ciência também ganhou destaque no seminário. A professora Marcia Speguen de Quadros Picolli, da UCS, discutiu os desafios de fazer o conhecimento acadêmico circular para além dos espaços especializados e defendeu uma relação mais horizontal entre pesquisa e sociedade.
“A popularização da ciência não significa retirar o rigor da pesquisa. Significa criar condições para que o conhecimento circule e dialogue com outros saberes. Quem participa de uma pesquisa também precisa ter acesso aos seus resultados e compreender o que foi produzido a partir daquela experiência”, defendeu.
Entre as possibilidades discutidas, formatos como podcasts, guias para professores, infográficos e plataformas digitais abertas capazes de apresentar resultados de pesquisas de forma acessível a professores, gestores, famílias e outros públicos entraram em pauta.
Foto: Dales Hoeckesfeld | #PraTodosVerem: A foto mostra uma mulher de óculos e blusa verde gesticulando enquanto fala em uma mesa com notebook.Pesquisa dá origem ao seminário
O seminário teve origem em uma pesquisa desenvolvida pelos Programas de Pós-Graduação em Educação da Univali e da UCS, financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc). O estudo reuniu grupos focais com pessoas de diferentes segmentos para compreender como elas percebem os efeitos do conhecimento e das práticas produzidas na pós-graduação em suas áreas de atuação, instituições que representam e sociedade.
As discussões realizadas durante o encontro evidenciaram as potenciais transformações ocorridas na vida dos estudantes, famílias e instituições que passam a interagir e atuar em parceria com a universidade, em particular com os Programas de Pós-Graduação em Educação em pesquisas e atividades conjuntas. Também mereceram debate os desafios enfrentados para que esses impactos tenham continuidade. Entre eles, a valorização da formação de professores pelas redes de ensino, a interrupção de projetos coletivos diante de mudanças de gestão e dificuldade de acompanhar transformações que acontecem ao longo de períodos extensos.
Uma das propostas abordadas foi a realização periódica de encontros com egressos da pós-graduação para que eles retornem às universidades e apresentem as transformações produzidas em escolas e comunidades. “A iniciativa pode contribuir para que processos de autoavaliação incorporem relatos qualitativos sobre os efeitos da formação e da pesquisa”, sinalizou a coordenadora da pesquisa na Univali, professora Regina Célia Linhares Hostins.
A discussão trouxe ainda a relação entre financiamento público e prestação de contas. A exigência de demonstrar resultados amplia a responsabilidade das universidades perante a sociedade, ao mesmo tempo em que coloca para os sistemas de avaliação o desafio de criar formas capazes de registrar diferentes escalas, tempos e naturezas do impacto.
Foto: Dales Hoeckesfeld | #PraTodosVerem: A foto mostra um grupo de pessoas sentadas em círculo em volta de mesas pretas em uma sala iluminada.A conversa retomou questões levantadas nos grupos focais e aproximou as perspectivas dos pesquisadores das experiências de quem vivencia os efeitos da formação e da produção de conhecimento nos espaços sociais e profissionais.
Experiências com games, letramento e outras práticas educacionais também apareceram como exemplos de efeitos produzidos pela pós-graduação. Os relatos mostraram mudanças na relação de crianças e comunidades com a universidade.
A percepção de diretoras de escolas periféricas revelou uma dimensão particular desse processo: a universidade passa a ser reconhecida pelas crianças não apenas pelos serviços que oferece, mas como um espaço ao qual elas também podem pertencer e no qual podem projetar sua própria trajetória acadêmica.
“Quando uma criança que vive em uma comunidade periférica passa a reconhecer a universidade como um lugar em que também pode estudar, produzir conhecimento e construir uma trajetória, temos uma dimensão de impacto que dificilmente aparece em um relatório. A pesquisa nos ajuda justamente a enxergar essas mudanças e a compreender que a identidade comunitária da universidade também se constrói nessas relações”, apontou a professora Regina.
Foto: Dales Hoeckesfeld | #PraTodosVerem: A foto mostra quatro pessoas em pé em uma sala, com uma mulher de cabelo vermelho gesticulando no centro.“Temos o poder de 'desinvalidar' as barreiras invisíveis da universidade para as comunidades mais vulneráveis, gerando um verdadeiro sentimento de pertencimento e transformação social”, concluiu.






















