“Crescimento econômico não garante qualidade de vida”, aponta professor da Univali sobre ranking nacional
Índice de Progresso Social (IPS) 2026 mostra que desenvolvimento econômico nem sempre tem reflexo no bem-estar da população e na redução das desigualdades sociais

Um município pode apresentar economia aquecida, geração de empregos e aumento da arrecadação. Só que, na prática, isso não significa que a população viva melhor. A avaliação é do vice coordenador do Programa de Pós-Graduação Profissional em Gestão de Políticas Públicas (PPGPP) da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), professor Marcos Vinícius Viana da Silva. Ele analisou os resultados do Índice de Progresso Social (IPS) Brasil 2026.
O levantamento avaliou os 5.570 municípios brasileiros a partir de 57 indicadores sociais e ambientais, organizados em três dimensões: necessidades humanas básicas, fundamentos do bem-estar e oportunidades. O resultado mostra que crescimento econômico, sozinho, não garante desenvolvimento social nem qualidade de vida.
Foto: iStock - APStock #ParaTodosVerem: imagem aérea mostra vista de uma cidade com árvores e prédios ao fundoO índice busca medir os impactos concretos do desenvolvimento na vida da população, considerando fatores como acesso à saúde, educação, saneamento, segurança, moradia, inclusão social, direitos individuais e qualidade ambiental.
Santa Catarina aparece entre os estados mais bem colocados do país, ocupando a terceira posição nacional. Para o pesquisador da Univali, mais importante do que a classificação é a reflexão que o estudo propõe sobre o papel das políticas públicas na promoção do bem-estar.
PIB não mede qualidade de vida
Segundo Marcos Vinícius, um dos principais equívocos é tratar crescimento econômico e desenvolvimento social como conceitos equivalentes.
"O PIB mensura o volume de produção e movimentação econômica de um território, e cumpre bem essa função. O problema é quando ele passa a ser tratado como sinônimo de qualidade de vida, porque não é. Uma cidade pode crescer economicamente de forma consistente e, ao mesmo tempo, ter parcelas significativas da população vivendo sem saneamento básico, sem acesso a serviços de saúde de qualidade ou sem segurança no espaço público. O crescimento econômico é condição necessária, mas insuficiente para o desenvolvimento social", ressalta.
O professor explica ainda que a proposta do IPS é justamente observar aquilo que os indicadores econômicos tradicionais não conseguem medir.
"O que o IPS propõe é uma mudança de pergunta: em vez de 'quanto esse território produz?', ele questiona 'o que essa produção gera de bem-estar concreto para as pessoas?'. Para quem trabalha com gestão de políticas públicas, essa é uma virada de perspectiva essencial. Políticas eficazes não são necessariamente as que aumentam o produto interno, mas sim as que conseguem transformar produto em qualidade de vida distribuída de forma equitativa", defende o professor.
Políticas públicas transformam crescimento em bem-estar
Na avaliação do pesquisador, o estudo também demonstra que só a riqueza não garante bons indicadores sociais. Municípios que conseguem transformar desenvolvimento econômico em qualidade de vida costumam reunir características como gestão pública profissionalizada, planejamento de longo prazo, monitoramento de resultados e continuidade das políticas públicas.
"Municípios que conseguem transformar renda em bem-estar geralmente dispõem de uma gestão pública mais profissionalizada, com planejamento de médio e longo prazo, sistemas de monitoramento de resultados e menor ruptura a cada transição de governo. Não basta ter recurso; é preciso saber onde aplicar, para quem e com base em que critérios", diz.
Marcos Vinícius destaca que o próprio IPS 2026 evidencia essa realidade ao mostrar que municípios com economias menos robustas também conseguem alcançar elevados níveis de qualidade de vida quando contam com políticas públicas eficientes.
Santa Catarina tem bom desempenho, mas desafios persistem
Apesar de Santa Catarina figurar entre os estados com melhor desempenho nacional, o levantamento também evidencia que boas médias podem esconder desigualdades importantes entre regiões e municípios. Além disso, os componentes que medem inclusão social e direitos individuais aparecem entre os piores indicadores do país, revelando desafios que vão além da infraestrutura e do crescimento econômico.
Para o professor da Univali, esses resultados mostram que o Brasil ainda enfrenta obstáculos estruturais para garantir cidadania plena e reduzir desigualdades de forma consistente.
"Esses dois componentes revelam um problema que transcende infraestrutura e renda: trata-se de um déficit de cidadania. As normas de proteção existem, mas nem sempre se efetivam na prática cotidiana. Avanços consistentes exigem ação coordenada entre diferentes níveis de governo, metas mensuráveis, indicadores de acompanhamento e participação ativa dos grupos afetados na construção das próprias políticas", destaca Marcos.
No caso catarinense, ele ressalta que a boa posição no ranking deve ser encarada como um incentivo para aperfeiçoar as políticas públicas e enfrentar as desigualdades que ainda persistem dentro do estado.


