Univali amplia debate sobre prevenção ao feminicídio após novo alerta sobre violência contra a mulher em SC
Relatório apresentado nesta semana na Assembleia Legislativa reforça crescimento dos registros de violência e reacende discussão sobre prevenção, reincidência e transformação cultural

O lançamento de um novo relatório estadual sobre violência contra a mulher em Santa Catarina reacendeu o debate sobre feminicídio, prevenção e enfrentamento à violência de gênero no estado. Apresentado no último dia 26 na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), o levantamento reúne dados recentes sobre ocorrências de violência doméstica, ameaças, medidas protetivas e feminicídios registrados em território catarinense.
Segundo dados do Observatório da Violência Contra a Mulher de Santa Catarina, o estado contabilizou 22 feminicídios entre janeiro e abril de 2026, além de mais de 12 mil pedidos de medidas protetivas no mesmo período. Os números reforçam o alerta para a necessidade de políticas públicas de prevenção e ações capazes de interromper ciclos de violência antes que eles evoluam para crimes letais.
Foto: iStock PeopleImages #ParaTodosVerem: imagem mostra mulher sentada em posição de proteção de frente para um homem que está em pé com postura agressivaDiante desse cenário, a Universidade do Vale do Itajaí (Univali) amplia o debate sobre violência contra a mulher e destaca a importância de discutir o problema para além da esfera criminal. Especialistas da instituição defendem que o feminicídio costuma ser o estágio final de uma sequência de agressões físicas, psicológicas e comportamentos de controle muitas vezes naturalizados socialmente.
Violência psicológica e prevenção
Para a coordenadora do curso de Psicologia da Univali do campus de Balneário Camboriú, Luciane Gobbo Brandão, o feminicídio raramente acontece de forma repentina. Segundo ela, a violência costuma se desenvolver gradualmente, por meio de comportamentos abusivos muitas vezes naturalizados socialmente.
“A violência nem sempre começa com um tapa. Muitas vezes ela começa com o silêncio imposto, com o controle, com a humilhação e com o medo”, explica.
A psicóloga destaca que ciúme excessivo, controle da rotina, isolamento da vítima e violência emocional ainda são frequentemente confundidos com demonstrações de cuidado ou afeto, dificultando que muitas mulheres reconheçam os primeiros sinais de abuso. “O amor saudável não aprisiona, não controla e não causa medo”, afirma.
Foto: iStock gpointstudio #ParaTodosVerem: imagem mostra mulheres sentadas com close nas mãos unidasAlém da atuação clínica, a professora destaca o trabalho desenvolvido pelos acadêmicos do curso de Psicologia da Univali no atendimento a mulheres vítimas de violência encaminhadas por instituições como o Programa Abraço, a Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso (DPCAMI) e a Casa Alva, em Balneário Camboriú. O acolhimento psicológico e a escuta qualificada, segundo ela, são fundamentais para ajudar mulheres a reconhecer situações de violência e buscar proteção antes que os casos evoluam para situações extremas.
Cerca de 3 mil medidas protetivas são concedidas por mês em SC
Além do aumento dos feminicídios, os dados estaduais também apontam crescimento das ocorrências relacionadas à violência doméstica e dos pedidos de proteção judicial. Segundo o Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC), a justiça catarinense concede, em média, 673 medidas protetivas por semana.
Para a juíza Naiara Brancher, titular do Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher da comarca da Capital e coordenadora adjunta da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cevid), do TJSC, o aumento dos pedidos reflete tanto o crescimento da violência quanto uma maior conscientização das mulheres sobre seus direitos e sobre as diferentes formas de violência, para além das agressões físicas.
“A medida protetiva é um instrumento extremamente eficaz para garantir a segurança das mulheres e evitar o feminicídio”, afirma a magistrada.
Segundo ela, o judiciário catarinense também vem ampliando ações preventivas, como o encaminhamento de autores de violência para grupos reflexivos e responsabilizantes, estratégia considerada fundamental para reduzir a reincidência.
De acordo com Naiara Brancher, Santa Catarina tem investido na expansão desses grupos em diferentes comarcas do estado e já observa resultados positivos na redução de novos episódios de violência, descumprimentos de medidas protetivas e retorno dos agressores ao sistema de justiça.
Foto: Divulgação #ParaTodosVerem: imagem mostra mulher em ambiente interno, sentada e falando ao microfone“Essa é como se fosse uma peça que faltava no enfrentamento à violência doméstica: trazer o autor da violência para o centro do debate”, explica. A juíza destaca que os grupos trabalham questões relacionadas à masculinidade, relações de poder e responsabilização dos agressores, promovendo reflexão e mudança de comportamento.
Ela também ressalta que Santa Catarina possui um dos índices mais elevados do país na rapidez de análise das medidas protetivas. Para se ter uma ideia, de acordo com o TJSC, no país, cerca de 52% dos pedidos de medidas protetivas são analisados no mesmo dia, enquanto outra parcela relevante apenas no dia seguinte. Já aqui no estado, 92% dessas análises são apreciadas em até 24 horas.
Prevenção e conscientização: os caminhos para romper o ciclo da violência
Para pesquisadores e especialistas, é unânime a ideia de que discutir feminicídio exige compreender os sinais anteriores à violência extrema. Ameaças, agressões recorrentes, controle psicológico e isolamento da vítima aparecem com frequência no histórico dos casos registrados no estado.
Nesse contexto, universidades, instituições públicas e órgãos do sistema de justiça têm reforçado iniciativas de conscientização, educação e prevenção como estratégias essenciais para enfrentar um problema que segue impactando milhares de mulheres catarinenses todos os anos.


